A TESE

Plínio Carlos Baú

 

Terminara a tese de doutorado. A apresentação estava pronta e a defesa seria em três dias. Banca durona, dois doutores novinhos. Doutor novinho gosta de mostrar erudição. Os outros dois, mais velhos, expoentes nas especialidades: um viria do Rio de Janeiro, maior cirurgião brasileiro vivo, e uma hematologista local de igual renome. A tese iniciara há dez anos quando fora procurado por um aflito colega hematologista para operar paciente testemunha de Jeová em final de gestação, com doença hematológica grave, púrpura trombocitopênica imune refratária ao tratamento, duas mil plaquetas, e que não aceitaria transfusão sanguínea: preferia morrer. Ninguém quis operar. Conhecia o assunto e sabia que poderia realizar a embolização da artéria esplênica na véspera, e operá-la sem transfusão, contrariando a regra. Gostava de contrariar regras. Embolizar hoje, e tirar o baço amanhã. Vai dar certo. E deu. Paciente salva, ausência de transfusão, nenê nasceu com saúde em quatro dias. Três dezenas de casos depois, fez uma tese. Era inédita na literatura mundial. Ficou bom.

Naquele final-de-tarde saia do consultório e pensava que a defesa poderia ser um sucesso, ou não. Se fosse, deveria haver comemoração. Mas, como convidar com antecedência para um ágape que poderia não haver? Lembrou de ir ao Hotel da Praça conversar com o maitre, velho conhecido, que lhe deu a solução: a comemoração, se houvesse, seria no Lobby Bar do Hotel que abrigaria de zero a duzentas pessoas, sem precisar de reservas. Solução perfeita, ficou tranqüilo. A tese estava concluída, a defesa estava preparada e a comemoração estava arranjada, era sexta-feira e o dia terminava, como gostava. Pensou: vou tomar uma taça de champanha, comemoração particular. Pedido feito, o garçon serviu e ficou olhando, sem se afastar. Ao contrário, aproximou-se, e humildemente perguntou: o senhor não é o doutor Lucas? Sim, respondeu, porque? Pois há dez anos o senhor operou minha mulher, que ninguém queria operar. Estava grávida e tinha uma doença que sangrava muito, e iria morrer no parto. Está muito bem, nosso filho é lindo e está com dez anos, e oramos pelo senhor todos os dias. Lágrimas abundantes desde o Hotel até a casa na zona sul. Quando o choro cessou, cessaram a insegurança e o medo, dando lugar a certeza de tinha feito a coisa certa. Dormiu muito bem,e defendeu a tese pensando naquela família cujo pai servira a taça de champanha antecipadamente festiva. Banca difícil, resultado bom: o primeiro “dez -com-louvor” daquela Faculdade.