SÃO LUCAS E A INSÕNIA
Plínio Carlos Baú – Cirurgião Geral
Há cerca de doze anos, um paciente idoso, já no ocaso da sua existência e que, periodicamente era internado por complicações do diabete, teve uma noite de insônia.Calçou os chinelos, vestiu o roupão e, alta madrugada, saiu do quarto indagando, a quem encontrasse, quem era São Lucas. Como não encontrou resposta entre os sonolentos funcionários do seu andar, foi descendo todos os andares, perguntando , afinal, quem era o Santo que dava o nome ao Hospital. Percorreu todo o trajeto, do nono andar ao térreo, inquirindo a auxiliares, técnicos, funcionários da nutrição, seguranças, familiares de outros pacientes, quem era São Lucas. Amanhecia o dia, quando, derrotado em sua incursão, exausto, retornou ao seu quarto. Foi assim que o encontrei na manhã em que fui visitá-lo. Estava muito amuado, e foi logo disparando: “-Droga de Hospital! Ninguém sabe quem é o Santo!” E relatou-me a sua aventura noturna. Continuou: “-Fui até à capela. Não encontrei nem um santinho ou imagem , ou alguém que me explicasse quem é São Lucas...” Expliquei-lhe, do meu modo, que São Lucas era um Apóstolo de Jesus que tinha algum pendor em cuidar de doentes, e por isso era considerado o médico da turma dos doze. Tratava-se do Santo padroeiro dos médicos. Cerca de um ano depois, o paciente faleceu em sua cidade de origem, rodeado por muito carinho da família e dos muitos amigos que fizera em vida. Na véspera do seu falecimento, num dos últimos atos de lucidez, chamou a esposa e pediu que ela providenciasse uma imagem de São Lucas para o Hospital que tantas vezes e tão bem o acolhera. Este último desejo foi atendido e, com o auxílio do Irmão Erno Cristh, fez-se a encomenda a um escultor de origem austríaca residente em Treze Tílias, Santa Catarina, conhecido como Sr.Mosel. Hoje, o Santo assiste tranqüilo a todas as pessoas que circulam pelo saguão do nosso Hospital e aquele velho morreu em paz. Foi um homem honesto, muito simples e bom. Era meu pai.